O barco de Odoyá chamava-se Glória
Antes de saber que eu era artista, a arte já pousava sobre a minha relação com as pessoas; na capacidade de ouvir o subtexto em cada conversa; na sensibilidade de observar e na certeza de que não se conhece terra alguma sem conhecer os frutos dela: o povo dela.
Eu fico imaginando o quanto uma cabeça feminina, preta e
retinta precisa trabalhar pra ocupar um lugar tão desejado. Isso na década de
70. E o quanto essa mesma cabeça precisou trabalhar para se manter em destaque
por cinco décadas. Cinquenta anos. Um câncer no cérebro não é de surpreender.
Então, ainda e sempre referência, se me sinto próxima da
elegância e eloquência dela, sigo em busca da inteireza e racionalidade, como
tecidos a vestir minha sensibilidade. A protegê-la.
Lembro-me que ela chegou a negar ser vítima
do racismo. Mas era inteligente demais para ignorar o movimento midiático na
indústria, pressionada pela luta dos movimentos sociais. Em tempo ela se
autorizou a acolher a própria dor e se perceber como a referência que sempre
foi.
Mas é preciso mencionar, também, o peso de ser referência. Referência preta. O peso de uma coroa.
O câncer tratado discretamente me leva às recusas do Pelé de se fazer presente em eventos oficiais internacionais de
futebol, por precisar fazer uso de uma cadeira de rodas.
É justo ceder tanto de si em prol da lenda que se carrega?
Será que aos súditos não cabe um pouco mais de respeito à
humanidade dos ídolos?
Eu não sei. Mas eu sou grata. E lamento por não ter tido
tempo de entrevistá-la.
Mas agradeço porque ela veio antes para que eu possa vir a fazer novas entrevistas.
Novas descobertas. É o que mais me interessa.
O que sei hoje é que cada esquina é uma lasca do mundo. E
que somos todos turistas por aqui.
Mas ela é turista vip. Mais de 150 países. E o barco que atracou para conduzi-la a esta nova viagem celebra a vida da Rainha do Mar e tem Glória como nome.

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