O barco de Odoyá chamava-se Glória

   Adolescente, atendendo a cobrança de escolher o que fazer pelo ‘resto da vida’, flertei com a psicologia e com o jornalismo. 

    Em pouco tempo assumi o jornalismo como parceiro que me proporcionaria um alcance maior do que a capacidade micropolítica de influenciar revoluções individuais, através da psique humana.

    Aos 17, então, da Universidade, olhava o trabalho da Glória Maria e sonhava em conhecer o mundo, oferecendo de volta a minha leitura sobre ele. 
 

     Antes de saber que eu era artista, a arte já pousava sobre a minha relação com as pessoas; na capacidade de ouvir o subtexto em cada conversa; na sensibilidade de observar e na certeza de que não se conhece terra alguma sem conhecer os frutos dela: o povo dela.

Eu fico imaginando o quanto uma cabeça feminina, preta e retinta precisa trabalhar pra ocupar um lugar tão desejado. Isso na década de 70. E o quanto essa mesma cabeça precisou trabalhar para se manter em destaque por cinco décadas. Cinquenta anos. Um câncer no cérebro não é de surpreender.

    Então, ainda e sempre referência, se me sinto próxima da elegância e eloquência dela, sigo em busca da inteireza e racionalidade, como tecidos a vestir minha sensibilidade. A protegê-la.

  Lembro-me que ela chegou a negar ser vítima do racismo. Mas era inteligente demais para ignorar o movimento midiático na indústria, pressionada pela luta dos movimentos sociais. Em tempo ela se autorizou a acolher a própria dor e se perceber como a referência que sempre foi.

    Mas é preciso mencionar, também, o peso de ser referência. Referência preta. O peso de uma coroa. 

    O câncer tratado discretamente me leva às recusas do Pelé de se fazer presente em eventos oficiais internacionais de futebol, por precisar fazer uso de uma cadeira de rodas.

    É justo ceder tanto de si em prol da lenda que se carrega?

    Será que aos súditos não cabe um pouco mais de respeito à humanidade dos ídolos?

    Eu não sei. Mas eu sou grata. E lamento por não ter tido tempo de entrevistá-la.

   Mas agradeço porque ela veio antes para que eu possa vir a fazer novas entrevistas.

    Novas descobertas. É o que mais me interessa.

    O que sei hoje é que cada esquina é uma lasca do mundo. E que somos todos turistas por aqui.

    Mas ela é turista vip. Mais de 150 países. E o barco que atracou para conduzi-la a esta nova viagem celebra a vida da Rainha do Mar e tem Glória como nome.

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