Carta ao meu cirurgião
Ei, Dr. Kléber!
Pra escolher o livro fiquei na dúvida entre Bauman e Brecht, mas fiquei muito decepcionada quando descobri que parte considerável da obra do alemão é fruto de apropriações intelectuais das mulheres que passaram por sua vida. Sinto não ser o caso.
Debrucei-me, então, sobre os pensamentos de seu contemporâneo, embora mais novo, sociólogo polonês.
Zygmunt já é tão presente que permito-me cortejá-lo em primeiro nome. Me sinto encantada por sua teimosia e rabugice, que se anuncia desesperançosa em relação à performance socioeconômica da humanidade ocidental, mas se dedica até o último suspiro de uma vida quase centenária a tentar nos inspirar a ampliar perspectivas com afinco, sobriedade e altivez: traços que enxergo ao me olhar no espelho, enquanto me desafio à auto compreensão de uma tela em processo, pintada por você.
Obrigada pelo zelo em cada ponto. Pelo cuidado, pela segurança e pela elegância. De volta aos tempos líquidos, preciso confessar que a decisão de uma intervenção estética me atravessa em muitos sentidos e teve peso decisivo pautado na confiança que minha família tem em seu nome. Principalmente a minha mãe. Confiança mais que justificada.
Espero que minhas palavras não lhe tenham tomado muito tempo. Tempo é tudo que (não) temos, afinal.
Mas posso prometer que são palavras nutridas do mesmo amor que luto para que seja cada dia menos líquido e mais poroso.
Ps: A Rose foi muito simpática e receptiva. Ela dissolveu todo receio que eu ainda tinha. Seu anestesista foi muito generoso na escolha das palavras. E ele tem a precisão de um sniper.
Deixa um beijo pra eles!
Até a próxima!
Karolina Lopes
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